A lição que todos escutam e ignoram em A Bela e a Fera

Tempo de leitura: 6 minutos

Por Eduardo M. R. Lopes

Vamos falar sério sobre uma estorinha clássica de princesa?

Mas antes peço que deixe de lado os pré-julgamentos da maioria dos homens que ainda não viraram pais de meninas, e que talvez por isso mesmo, de uma forma em geral, irão continuar olhando torto para as princesas porque estão apegados aos super-heróis e vilões da vida.

Tudo bem, entendo porque eu também ERA assim.

Quem acompanha os meus artigos e postagens já sabe que, desde o dia em que a minha filha viu o desenho aonde o Mickey mandava o Pato Donald colocar o cinto de segurança ao entrar no carro, nunca mais ela chorou ou se recusou a colocar o cinto.

Desde então, fiquei cada vez mais atento sobre como usar muitas destas lições que são passadas nos mais variados tipos de desenhos e estórias como apoio para refletir e ajustar determinadas situações do cotidiano – tanto no dela como no meu.

E o sensacional filme A Bela e a Fera, que revimos nesta semana, é um prato cheio e saboroso porque:

  • É a Disney em estado de graça no que talvez tenha sido o melhor filme com “personagens de verdade” (como diz a minha filha) de todos os tempos (melhor que O Mágico de Oz?);
  • É a estória que a minha filha mais gosta – empatado tecnicamente com O Mágico de Oz;
  • A Bela é a musa absoluta e o maior exemplo no quesito amor pelos livros;
  • A estória é tão genial e fascinante que deveria fazer parte do curriculum obrigatório de formação em todas as escolas.

A questão é que na ânsia do ser humano em resumir as coisas, de preferência numa moral da estória retumbante, na grande maioria das vezes a solução final (o “como”) tende a falar sempre mais alto que as razões que a criaram (o “por que?”).

E A Bela e a Fera é um belo (literalmente) exemplo disto, pois a moral da estória, que chamarei de “lição óbvia” que é passada e enfatizada de geração para geração, é aquela velha conhecida e cantada em verso e prosa para não julgarmos os outros pelas aparências, pois o importante é a beleza interior que está no nosso coração.

Perfeito e brilhante, lindo e emocionante, MAS não é só isso.

Ok, talvez o fato de você ter que conviver durante 75% do tempo da estória com aquela figura “horrenda”, de certa forma obrigue a sua mente a permanecer em stand-by com apenas um adjetivo (ou derivado) em mente: feio.

E, após o final, todos levamos para casa essa tal lição óbvia tatuada em algum canto do cérebro, usando-a de modo até pejorativo com quer que se aproxime dos nossos filhos, amigos e até de nós mesmos, resumindo tudo num “ele é feio, mas é bonzinho como o príncipe da Bela e a Fera”.

Pois é, quem nunca, né?

O grande ponto é que todo mundo se esquece rapidamente do porquê que ele foi transformado em fera e ficou “feio” – e é esta a grande lição que chamo de “não óbvia”, justamente porque a maioria das pessoas passa batido por ela o tempo todo.

Já imaginou se de repente cada um de nós também fosse transformando em fera por causa dos nossos atos egoístas e de desprezo/humilhação pelos outros seres humanos (e animais também)? Já pensou como ficaria a sua cidade?

Quando lembro do trânsito na cidade de São Paulo, especialmente nas épocas das greves que paravam o transporte público, provavelmente iria faltar rosas no planeta para dar conta de todos os feitiços que teriam que ser feitos.

Afinal, eram tantas as feras estressadas, que estavam por ali atrás dos volantes, tentando se matarem no meio do trânsito caótico para ocupar 1 cm na frente ou quase “por cima” dos outros, que estavam parados com caras de babacas do tipo “a culpa não é minha” no meio dos cruzamentos após furarem os sinais vermelhos, ou ainda tentando atropelar os pedestres que insistiam em andar em cima das faixas só porque o Waze descobriu novas rotas nunca dantes navegadas.

Nesses momentos de crise, como o desse exemplo cotidiano, é que essas pequenas atitudes revelam muito sobre se essas feras de fato querem o fim da corrupção ou se, na verdade, querem apenas o fim da corrupção dos outros; se querem gerar gentileza de forma real e imediata para o próximo ou se apenas querem curtir e compartilhar atos gentis feitos e filmados por terceiros como forma de darem um sonrisal para a alma; se querem ajudar a fazer do nosso bairro (cidade, estado, etc) um lugar melhor para se viver ou apenas um lugar melhor para SI viver.

O ponto de atenção é que cada ação normalmente gera uma reação, no mínimo, da mesma intensidade, e tudo começa com a educação, ou melhor dizendo, com a falta dela.

A minha filha agora está com cinco anos, mas até então acreditava que se continuasse tendo “atitudes deselegantes” (que é como ensinamos a classificá-las), estaria correndo o sério risco de também virar uma fera, e era justamente por isso que ela tinha medo da Fera – não porque ele é “feio”, mas sim porque ela não queria de jeito nenhum sofrer uma transformação igual a dele. E essa era uma forma dela mesmo se policiar.

Com o passar do tempo, essa magia começará a dar espaço para a realidade e as crianças começarão a descobrir que elas não correm nenhum risco real de se transformarem de verdade.

Então, haverá sim um grande risco delas ligarem o foda-se – principalmente se tiverem tido uma base de apoio (pais, tutores, etc) que também já tenha agido desta mesma forma “delargando” a educação para a tv, professores e outros que não eles.

Será a partir daí que identificaremos quem conseguiu crescer fazendo bem essa transição da ficção para a realidade de forma tranquila, entendendo que poderá fazer a diferença no mundo com a ajuda do próprio mundo, e quem chegou a conclusão que o mundo só existe para servi-lo do jeito e na hora que lhe der vontade.

No final das contas, caberá a cada um de nós monitorar sempre a nossa fera interior e refletir sobre o porquê de continuar insistindo em ter determinadas atitudes egoístas e deselegantes, pois mesmo que isto não nos transforme fisicamente numa pessoa mais feia, certamente uma mudança positiva de atitude nos transformará tanto em seres-humanos melhores como, principalmente, ajudará o nosso mundinho a se tornar um lugar cada vez melhor para viverMOS.

Gostou?

Insira seu e-mail abaixo para receber gratuitamente novos artigos!>

4 Comentários


  1. A lição não óbvia que esse desenho apresenta é mto interessante.

    Responder

  2. Eduardo vc não poderia ter escrito texto melhor!! Esse sem dúvida é o melhor filme da Disney! Ganha em tudo! Riqueza de detalhes do aspecto psicológico dos personagens é incrível.Além de tudo que vc já colocou me chama muita a atenção o excesso de vaidade e nuances do personagem Gaston.A falta de interesse real dele pela Bela e seu gosto pela leitura retrata um tipo de homem/pessoa vazia que precisa da mulher como troféu apenas.E isso tudo é perfeitamente conduzido na trama sem excessos feministas e sem vitimizar a mulher,que quer sim um pouco de cada coisa,vida inteligente e um belo amor. Perfeito eu diria!! Beijos

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.