O Círculo Virtuoso e o Vicioso da paternidade

Tempo de leitura: 6 minutos

A forma como os pais fazem uso do tempo com os filhos é a diferença na construção de um círculo virtuoso ou vicioso no relacionamento familiar.

Por Eduardo M. R. Lopes

Em qualquer roda de conversa entre pais e mães, o assunto filhos é um tema onipresente e logo começam a aparecer comentários do tipo “não sei o que vocês fazem, pois o meu filho é impossível” ou “ele é que feliz, pois o filho é um doce”.

A minha filha, por exemplo, já está com quase 5 anos e geralmente é tida como um “doce”, mesmo sendo uma clássica leonina de personalidade forte e dominante, que grita mais forte que qualquer cantor de death-metal sem arranhar a garganta, que chora por mais tempo a plenos pulmões sem perder o fôlego e que empaca com as coisas muito mais do que qualquer mula brava.

Sempre fui muito preocupado com esta questão e, desde que descobri que ia ser pai, tenho estudado, observado, experimentado e aprendido sobre as relações entre pais e filhos nos mais variados tipos de ambiente e famílias.

E até para entender um pouco melhor o que eu poderia fazer a respeito (se é que havia algo a ser feito), comecei a prestar mais atenção nas tais crianças “impossíveis” e notei que esse conceito poderia ter dois sentidos:

– No sentido de Agitação – relacionado ao comportamento ativo, que normalmente todas as crianças são em maior ou menor grau;

– No sentido de Insuportável – relacionado ao comportamento inadequado e falta de educação, onde algumas crianças vão se tornando ao longo do tempo.

Se no primeiro sentido aparentemente não havia muito o que fazer (era jogar o jogo), então precisaria ficar atento e me concentrar no segundo sentido, pois o simples fato de me imaginar convivendo com uma criança realmente “insuportável” me deixava extramente preocupado.

Assim comecei a perceber um certo padrão de comportamento nas famílias com as quais íamos nos relacionando, e vi que as crianças “doces” costumavam aparecer nas famílias que viviam no que chamei de “Círculo Virtuoso da Paternidade”, enquanto que as crianças “insuportáveis” apareciam no que identifiquei como “Círculo Vicioso da Paternidade”.

E o mais curioso é que, tanto nas relações mais sadias e felizes (Círculos Virtuosos) como nas mais estressantes e conflitantes (Círculos Viciosos), a questão do amor envolvido (no sentido de querer bem acima de tudo) era aparentemente igual.

O problema, afinal, não era a falta de amor (que já é um grande problema por si só), mas sim a falta de tempo – e tempo no sentido da qualidade do tempo passado junto ao invés da quantidade de tempo em que estavam juntos, como os psicólogos e educadores já vêm alertando há tempos.

Os pais que estavam conseguindo passar mais tempo de qualidade com seus filhos pareciam mais felizes e menos resmungões, bem como os que diziam que viviam sem tempo para os filhos pareciam não tão felizes e reclamões.

Desta forma, com as premissas dos fatores Presença (estar presente COM qualidade) e Não Presença (que é estar ausente ou presente SEM qualidade) como pontos de partida ficou fácil identificar se estamos presos dentro de um círculo vicioso ou se estamos crescendo dentro de um círculo virtuoso.

Vamos a eles.

1- Círculo Vicioso da Paternidade

Quanto maior for a Não Presença (ausência ou presença sem qualidade) no relacionamento, independente de viverem o tempo todo ao lado das crianças, maiores serão as chances dos pais viverem como meros expectadores do crescimento dos filhos sem conhecê-los de fato.

Por não conhecê-los, ficarão cada vez mais inseguros e com dúvidas a respeito da reciprocidade do amor dos filhos por eles.

A insegurança leva ao medo, que gera um sentimento de culpa de que não estejam dando conta do seu papel de pai ou mãe.

Com a culpa, começa-se então a fazer todas as vontades dos filhos, acreditando que assim a sua ausência estará compensada, pois os filhos ficarão felizes e eles voltarão a ser os pais “queridos”.

No entanto, esta felicidade momentânea e a simpatia de ocasião não estão fundamentadas no respeito, mas sim na conveniência, aumentando cada vez mais o abismo na relação.

Com a relação fragilizada num ambiente sem respeito, quando uma coisa deixar de ser conveniente para a criança ou alguma vontade não for atendida, por menor e insignificante que seja, acabará se transformando num conflito com tendências exponenciais.

Com tantos problemas no trabalho e no dia-a-dia, a última coisa que os pais querem ter são problemas em casa – e, numa espécie de auto-defesa suicida, eles tendem a se afastar ainda mais da criança, pois ela é “impossível, difícil, problemática” e acham que não tem mais jeito.

E, se não há jeito, o ato de criar se transformará apenas em sustentar, e o foco passará a ser o trabalho para garantir que não falte nada em casa – inclusive a tranquilidade aparente.

Desta forma, os pais se tornaram escravos dos filhos e, sem perceberem, ficaram presos dentro de um grande círculo vicioso, que começará a ficar cada vez mais forte enquanto que a relação da família ficará cada vez mais enfraquecida.

2- Círculo Virtuoso da Paternidade

Quando há a Presença ativa dos pais em suas relações com os filhos, o tempo juntos é usado com qualidade e então há uma troca recíproca de conhecimento e aprendizado.

Quanto melhor for esse tempo juntos, maior será a troca e ainda maior será a empatia desenvolvida pelos pais ao longo do tempo, o que aumentará o conhecimento sobre os filhos e também facilitará tanto o ensino como, principalmente, a educação.

Essa troca constante também gerará o fortalecimento da confiança na relação, que passará a crescer em cima de uma base verdadeira de respeito, que tenderá a ficar cada vez mais sólida.

E quanto mais se fortalecer esta relação, mais os pais irão querer ficar com filhos e todos crescerão como indivíduos dentro de um círculo virtuoso, que tenderá a ficar cada vez mais coeso com o passar do tempo.

3- Conclusão

Para as crianças e o seu devolvimento uma das coisas mais importantes é a qualidade do tempo passado junto dos pais ao invés de apenas a quantidade de horas juntos.

Ficar 24 horas em casa com os filhos sem interagir, estimular, ler ou brincar com eles, por exemplo, aparentemente surte o mesmo efeito (ou até pior) em termos de relacionamento pai/filho do que não estar com eles fisicamente: ou seja, nenhum.

Não sou um pai perfeito (muito longe disso) e também não tenho uma filha perfeita, mas desde que esta ficha caiu passei a ficar muito mais presente quando estou junto dela e, por enquanto, só vi benefícios na criação deste círculo virtuoso – o que não quer dizer que seja um processo fácil, mas sem dúvida nenhuma é muito mais divertido e construtivo.

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3 Comentários


  1. Sensacional Eduardo!!!! Parabéns! Texto incrível que inspira a refletirmos sobre as nossas açoes diarias com os nossos filhos. Você escreve de uma forma muito clara, divertida transmitindo muito conhecimento. Que deus continue te abençoando sempre e já estou ansiosa por ler mais das suas publicações! Com certeza vou comparthar!!!!

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    1. Olá, Joelle! Obrigado pelos elogios e vamos em frente com os nossos filhos maravilhosos. Um grande abraço para você e sua família!

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