Como não acabar com a criatividade do seu filho?

Tempo de leitura: 6 minutos

Confundir o “não” como ferramenta de educação e criação de limites com o “não” como mecanismo de destruição da criatividade e da iniciativa é o início da criação de um futuro adulto “engessado”.

Por Eduardo M. R. Lopes

Um dos grandes motivos de stress nas relações entre pais e filhos está na aplicação da palavra “não” nos mais variados tipos de situações e a administração das birras que vêm logo em seguida.

Fazendo uma busca rápida na internet, vemos centenas de psicólogos nos mostrando milhares de exemplos sobre como o “não” ajuda na criação de limites dentro e/ou fora de casa, e do quanto a sua aplicação é de suma importância na educação dos nossos filhos.

Quanto a isso, OK; e até agora, aliás, nunca tive nenhum tipo de constrangimento em dizer não para a minha filha quando ela quer fazer ou ter algo que eu não concorde, e mantenho a presença de espírito para aguentar as birras que essa palavra desencadeia.

Afinal, faz parte e, como já dizia a minha mãe, “cara feia para mim é fome”; então, vamos em frente, pois a questão que quero discutir neste artigo é outra.

Você já passou por isso, seu filho ainda não

Um adulto praticamente já viveu quase todas as experiências que uma criança ainda terá pela frente e, por isso mesmo, já sabe quase todas as respostas.

Além disso, a vida adulta nos trás tantos desafios e responsabilidades, que muitas vezes ligamos o piloto automático como mecanismo de defesa (preguiça?) nas situações que avaliamos como banais, para deixar o cérebro preparado para os maiores problemas que estão logo ali a dobrar à esquina.

E é justamente aí que começamos a confundir o “não” como ferramenta de educação e criação de limites com o “não” como mecanismo de destruição da criatividade e da iniciativa.

Parece confuso?

Vamos ao exemplo.

Na semana passada, acordei a minha filha e ela foi logo ao banheiro para escovar os dentes.

Enquanto separava o uniforme dela para ir à escola, escuto a sua voz me chamando lá no banheiro.

– Pai, posso fazer uma experiência? Posso colocar pasta de dente na caneca e enchê-la com água da torneira?

Se você está com o piloto automático ligado, (e é difícil não estar de manhã cedo!), a simples menção da palavra “experiência” já te remeterá à uma lambança que será feita (sendo óbvio que sobrará para você limpar), e então você nem prestará mais atenção ao restante da pergunta.

Afinal, você nem está arrumado e ainda terá que arrumá-la também, depois terá que levá-la para a escola e correr para o trabalho para chegar em cima da hora, aonde um caminhão de problemas já o estará lhe esperando de braços abertos.

Pensando nesse futuro, você esquece do presente e, como não quer lambança no banheiro à essa hora para não correr o risco de atrapalhar o seu cronograma e atrasar o seu dia, a sua resposta imediata será um “não” seco.

Há uma boa chance da sua filha não se dar por satisfeita e tentar novamente repetindo a pergunta, mas então você ficará irritado ao entender agora o que é o tal experimento porque o resultado dele é “idiota” – afinal, você já sabe a resposta.

Entretanto, se você é um pai que tenta ficar presente ao momento, que tenta praticar a empatia com o seu filho, que entendeu de primeira a pergunta e não tremeu quando ouviu a palavra “experiência”, mesmo assim ainda há uma grande chance de você também falar “não” (para não atrasar todo o cronograma) – muito embora talvez você possa sugerir para fazer esta experiência mais tarde, quando os dois voltarem para casa.

Mas espera aí – quanto tempo demora esta experiência? Que tipo de lambança poderá ser feita se tudo der errado? Como a criança ficará o restante do dia – independente do resultado?

Pois é, eu consegui destravar o piloto automático do “não” para quebrar esta rotina e, se você também tivesse dito “sim”, veria que em menos de 1 minuto a minha filha repetiu a experiência 3 vezes para constatar que a água na caneca com um pouco de pasta de dente ficou com mais borbulhas do que a caneca com água sem a pasta de dente.

Por mais idiota que seja (para nós), ela ficou maravilhada ao descobrir como fazer mais borbulhas, deu-me um grande beijo, nunca se arrumou tão rápido, foi feliz da vida para a escola com a cabeça fervilhando de novas perguntas e, o principal, perguntou se poderíamos fazer JUNTOS mais experiências.

Ou seja, não só ganhei o dia, como a nossa “parceria” ficou mais sólida e isto se tornou assunto para a semana inteira com outras tantas experiências mais curiosas.

A linha tênue e o fator preguiça

A linha que separa esse “não que educa” do “não que destrói” é tênue e o “fator preguiça” (em acompanhar a criança) muitas vezes é a resposta que identifica esse segundo tipo de “não”; e por isso é importante que façamos todos os dias esta reflexão se quisermos que as sementinhas que estamos criando continuem a desenvolver os seus potenciais criativos.

O lado ruim de não fazermos e, desta forma, não deixá-los experimentar porque não quisemos parar por alguns instantes (preguiça), num ambiente sob o nosso controle, para deixá-la fazer alguma coisa que, em geral, não oferece risco à saúde de ninguém, poderá colocar as crianças em dois caminhos:

– O da rebeldia no pior sentido, pois toda criança é curiosa e, se ela perde a confiança nos pais para ajudá-la a descobrir as pequenas coisas do mundo, ela irá tentar fazer sozinha às escondidas em ambientes não controlados onde o resultado poderá se tornar desastroso;

– O da “submissão”, onde a criança aceita até certo ponto essa poda contínua, e assim seguirá crescendo “engessada”, menos curiosa, com um repertório menor de experiências e, por tabela, com a sua base para exercer a criatividade (como ferramenta para resolução de problemas) totalmente comprometida.

Lembre-se que num futuro em que muitas das profissões que conhecemos hoje desaparecerão, enquanto que outras serão dominadas por robôs e outras ainda que sequer imaginamos serão criadas, a criatividade e a iniciativa ainda permanecerão como diferenciais para os nossos filhos sobreviverem nesse novo cenário.

E, se quisermos que eles cresçam aptos a navegarem melhor neste novo ambiente, então é necessário que desde já deixemos o “fator preguiça” de lado, pois cada “não” mal dado é um pedacinho de gesso colocado num adulto que ainda está em construção.

Pense nisso… e faça algo, né?

Em tempo: para saber mais sobre criatividade e como criar crianças criativas, acompanhe o trabalho do mestre Murilo Gun através deste link -> Keep Learning School

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