Disciplina Positiva: o que aprendi na palestra da Joy Marchese

Tempo de leitura: 11 minutos

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A coautora do livro “Positive Discipline for today´s busy (and overwhelmed) parent” esteve na escola da minha filha para falar sobre disciplina positiva e contarei um pouco sobre o que aprendi.

Por Eduardo M. R. Lopes

Nesta semana assisti a uma palestra maravilhosa na escola da minha filha sobre a Disciplina Positiva com a Joy Marchese, que além de “embaixadora” do tema na Europa, Ásia e Oriente Médio, é a coautora do recém lançado livro “Positive Discipline for today´s busy (and overwhelmed) parent: how to balance work, parenting and self for last well-being” (lançamento em português previsto para o Brasil no segundo semestre de 2019 e ainda sem previsão em Portugal).

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Aliás, as outras duas autoras que assinam esta obra junto com ela são a Kristina Bill e a Jane Nelsen – sim, ela mesmo, a autora da clássica obra “Disciplina Positiva“, que é o ponto de partida e referência absoluta sobre o tema.

Para quem ainda não está familiarizado, resumiria que a disciplina positiva baseia-se no respeito mútuo e na empatia para melhorar a conexão entre os pais e os filhos dentro de uma linha educacional respeitosa e firme, evitando assim os dois extremos prejudiciais para uma educação saudável, que são as disciplinas Autoritária (os pais mandam nos filhos) e a Permissiva (os filhos mandam nos pais).

Aqui irei listar os principais pontos abordados por ela misturando um pouco com a minha opinião (como sempre, né?).

O gap entre os desafios atuais e o que gostaríamos de construir

No início, ela nos pediu que falássemos sobre alguns desafios comportamentais que estamos vivenciando agora com os nossos filhos e, logo em seguida, pediu que falássemos também sobre as características e habilidades que gostaríamos de ver presentes nos nossos filhos daqui a 15 anos.

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Em seguida ela apresentou este quadro, que é o mesmo que ela mostra em todas as palestras que faz pelo mundo afora, onde apareceu quase todos os desafios e características que a nossa turma listou.

Ou seja, os pais e mães nos quatro cantos do mundo estão literalmente no mesmo barco nesta jornada!

E, com mais um outro exercício rápido, simulando ordens corriqueiras num dia a dia “comum” na relação entre pais e filhos, mostrou-nos o quanto que pequenas atitudes, como o simples jeito de nos comunicar, ao invés de criar pontes de aprendizado entre os desafios enfrentados e a construção das características e habilidades desejadas, está apenas aumentando o abismo entre elas.

A disciplina positiva ajuda a construir esta ponte na medida em que atua para melhorar a conexão entre os pais e os filhos (Connect before correct / conectar antes de corrigir) e, por tabela, provocando uma melhora no auto-conhecimento dos pais que os ajudará a se conectarem mais facilmente com os filhos.

Afinal, antes de mudar os nossos filhos, nós é que precisaremos mudar, e o mais curioso é que isso acontece naturalmente e diariamente desde que estejamos dispostos a adotá-la.

É o verdadeiro ganha-ganha.

Principais pontos abordados

Como o assunto é muito rico e gera várias dúvidas que poderiam ser discutidas por horas sem ninguém cansar, por questão de horário ela então focou em 4 tópicos + 1 bônus para ficarmos atentos:

1- Substituir o “Não” pela linguagem do “Fazer”

O “não” é rápido e fácil de usar, muitas vezes parece efetivo em momentos específicos, mas na grande maioria das vezes não ajuda a criança a aprender.

É claro que você também já ouviu várias vezes sobre isso e às vezes até se perde em como aplicar isso na prática, mas vamos a um exemplo do cotidiano para facilitar as coisas.

Exemplo: você levou uma canequinha com água para o filho beber no quarto.

Se, desde a primeira vez, ao invés de ficar martelando que “não pode deixar a canequinha no quarto”, você fizer um combinado e explicar o porquê o quarto não é o lugar para se beber água, mas que às vezes tudo bem desde que, ao terminar, ele leve a canequinha de volta para a cozinha, isso começará a criar na criança um senso de responsabilidade e confiança.

E o mais importante: se você perguntá-la o porquê (dependendo da idade), ela conseguirá explicar a razão ao invés de responder o vazio e rancoroso “porque o meu pai quer”, que demonstra que o pai não conseguiu estimular de forma adequada um aprendizado nesta situação.

2- Modeling

Depois de chorar e mamar, que são reações relativas ao instinto de sobrevivência, a primeira coisa que um bebê aprende a fazer é… sorrir.

Afinal, quando ele não está chorando, mamando ou dormindo, o que ele mais vê são as pessoas colocando os rostos próximo ao dele e abrindo um largo sorriso.

E, durante a infância, a formação delas é feita baseada no que os pais estão fazendo.

Voltado ao exemplo da canequinha com água, de nada adianta os pais combinarem e ensinarem o que fazer com a canequinha no quarto, se quando a criança for até o quarto dos pais, escritório ou a sala, encontrar copos e canecas “dormindo” por ali.

A criança, então, começará a perder a noção da Conexão & Contribuição , que é a base psicológica (invisível) que está por trás do comportamento (visível).

Afinal, se nós somos uma família e é importante para o bem-estar de todos que caso alguém tenha bebido água no quarto que leve o copo de volta para a cozinha, então por qual razão os pais podem deixar o copo “dormir” e os filhos não?

Como não há uma explicação racional para isso, na cabeça da criança foi quebrada tanto a Conexão (eles apenas mandam e eu só obedeço) como a Contribuição (só eu faço pelo bem-estar coletivo), levando-a a modificar o comportamento e iniciar o cultivo de uma semente de irresponsabilidade e outra de desconfiança.

É o mesmo caso dos pais que me contam que não conseguem fazer os filhos gostarem de ler.

Pergunto: desde pequeno você se sentava todas as noites e lia para ele? Dava livros de presente?  Levava-o à bibliotecas? Passeava nas lojas de livros?

Resposta: silêncio.

As crianças são esponjas e nós seremos sempre os seus modelos.

3- Deixe a criança sofrer, mas NUNCA a faça sofrer

A punição e o castigo até possuem efeitos práticos e imediatos com relação a solução de problemas, mas possuem efeitos praticamente nulos em termos de aprendizado no longo prazo.

E, dependendo do tipo e da constância aplicada, podem até gerar danos psicológicos graves.

As crianças aprendem de verdade é pela consequência lógica dos seus atos e não pela punição, então precisamos ter claro (e é difícil) em nossa cabeça que é OK deixar a criança sofrer (com supervisão), mas é um crime fazer a criança sofrer.

Exemplo: bater na criança porque está frio e ela não quer colocar o casaco é fazê-la sofrer.

Já deixá-la sair sem sair casaco é deixá-la sofrer.

Lembro bem disso quando, há quatro anos, minha filha tinha 18 meses e nós estávamos de férias em Nova York com -10 graus numa das piores nevascas da história.

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Tirando a fanfarronice da foto, o fato é que ela passou pela experiência de pegar (muita) neve pela primeira vez na vida muito bem, obrigado.

MAS, no primeiro dia, quando íamos sair do hotel, ela chorou com todas as suas forças no saguão e se recusou terminantemente a deixar fechar o casaco, a colocar o cachecol e as luvas, e estava brigando com aquele protetor corta-vento (e chuva) transparente que fica na frente do carrinho.

No meio da birra entendi que era uma experiência nova para ela o fato de ter que colocar tudo aquilo que ela nunca tinha precisado usar na vida e ela não estava conseguindo entender muito bem o porquê.

Deixei-a então do jeito que ela queria, para desespero da minha esposa, e conduzi o carrinho até a porta automática, que logo se abriu e deixou entrar uma pequena amostra daquele vento congelante.

Foi o suficiente para ela ficar com olhos arregalados e começar a apontar para mim tudo o que deveria ser feito para protegê-la do frio e, se você perguntar para ela o que se usa para ir para neve, ela te dará a lista completa.

4- Faça perguntas curiosas

É óbvio que o exemplo acima foi bem extremo, pois é impossível ficar na neve sem a proteção adequada por alguns minutos.

Mas, como é comum, num frio “normal” (até aqui em Portugal) dá para a pessoa sair de casa sem casaco e começar a sentir frio algum tempo depois.

Seguindo o raciocínio do exemplo anterior, se ela quer sair sem o casaco, tudo bem.

MAS, antes de sair, ao invés de darmos a ordem tradicional de que “não pode sair assim”, trocar isto para uma pergunta que desperte a curiosidade para a solução do problema.

Exemplo: você já viu no termômetro que a temperatura está mais baixa que ontem e que, nesses casos, precisamos de proteção adicional. Se você não quer levar o casaco, o que você fará se sentir frio mais tarde na escola? E, se o sol abrir, e a professora deixar apenas as crianças que estão bem agasalhadas brincarem no pátio do recreio, do que você brincará sozinha dentro da sala de aula?

A criança começará a perceber que o ato de não querer o casaco gerará algumas consequências e, desta forma, sua mente começará a ser estimulada de uma forma positiva.

E o aprendizado para ela começar a se tornar um “problem-solver”, desenvolver a sua criatividade e a tomada de risco, que são 3 habilidades desejadas e listadas pelos pais no quadro lá de cima, começará a ser formada diariamente a partir de um pequeno exemplo como este.

5- Bônus: não faça pela criança nada do que ela consiga fazer sozinha.

Como queremos ensinar a criança a ter responsabilidade se sempre levamos os brinquedos, mochilas e roupas delas penduradas conosco enquanto ela vai toda faceira de mãos abanando para escola ou para a natação?

Pois é, como este há vários outros exemplos que fazemos inconscientemente (e sempre por amor), mas que na verdade não estamos a ajudando a criar este senso de responsabilidade em nossos filhos.

E depois não adianta reclamarmos que ela não tem responsabilidade alguma se, no nosso dia a dia, ainda fazemos por ela tudo o que ela já poderia fazer sozinha, né?

Moral da história

A disciplina positiva, muito mais do que um processo de educação, é uma mudança de chave na forma como nos enxergamos, como enxergamos os nossos filhos e como nos conectamos a partir daí para construirmos pessoas melhores (nós e eles).

É óbvio que isto não se “implanta” do dia para a noite, pois é um trabalho gradual e diário de formiguinha, que necessita da nossa permanente vigilância e da atuação sobre cada situação vivida.

Num primeiro momento até parece difícil (e no mundo da paternidade há algo fácil?), mas de todas as formas de nos relacionarmos com os nossos filhos, este parece ser de fato o melhor e mais sólido caminho para um relacionamento familiar saudável, educativo e construtivo ao longo tempo.

Em tempo I: Siga a Joy Marchese ( @busy_working_mum ) no Instagram, acompanhe o seu belo trabalho em Positive Discipline UK e compre o livro na Amazon clicando aqui .

Em tempo II: Para conhecer mais a Jane Nelsen e conhecer todo o seu maravilhoso trabalho, visite o site Positive Discipline.

Em tempo III: Para conhecer mais sobre o tema em português, clique em “Disciplina Positiva: Primeiros passos” e acompanhe o ótimo blog do Paizinho Vírgula.

4 Comentários


  1. Obrigado por dividir a experiência conosco. Excelente texto, grandes dicas e muita lucidez. Algumas coisas eu fazia por instinto, de outras sequer tinha conhecimento. Vamos experimentar. Grande abraço, Edu.

    Responder

    1. Oi, Bibo!
      Estamos no mesmo barco, pois eu também fazia algumas coisas por instinto e outras nem tinha noção.
      Experimentar, como você bem disse, é a palavra-chave e é também o que mais temos feito na nossa jornada, né?
      Grande abraço!
      Eduardo Lopes

      Responder

  2. Olá, é a primeira vez que visito seu site! Estou lendo “Disciplina Positiva” e convencida que esse é o melhor caminho a ser seguido! Gostaria de saber se em Portugal existem escolas infantis que seguem essa filosofia, assim como a escola da sua filha vos ofereceu essa oportunidade da palestra!
    Muito obrigada!

    Responder

    1. Olá, Aline!
      Obrigado pela visita e, sinceramente, não sei se há outras escolas aqui em Portugal seguindo 100% este conceito – espero que sim! 🙂
      A da minha filha, por exemplo, também não é 100%, apesar de já vir incentivando algumas práticas, mas que para o próximo período letivo deverá ampliar ainda mais esse trabalho.
      Um abraço,
      Eduardo Lopes

      Responder

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