O elogio que desmotiva e o feedback que traumatiza a criança

Tempo de leitura: 6 minutos

Elogiar apenas a inteligência dos filhos ou menosprezar o resultado alcançado em alguma tarefa são dois lados da mesma moeda para bloqueá-los ao invés de motivá-los

Por Eduardo M.R. lopes

Estava procurando um filme na Netflix para fazer uma sessão pipoca em casa e, quando apareceu o rosto colorido do Chapeleiro Maluco em “Alice através do espelho”, minha filha não teve dúvidas: é esse!

Na época do lançamento não me lembro de ter ouvido comentários muito favoráveis, até mesmo porque, e apesar do título, não é bem uma adaptação do segundo livro da Alice, mas fomos em frente.

E não é que o filme surpreendeu positivamente?

Além da diversão para a família, o filme também abordou algumas questões bem interessantes, principalmente na relação entre pais e filhos, na valorização das mulheres, no aprendizado com o passado e da eterna briga (literalmente) contra o tempo, entre outros, mas uma questão em especial me chamou a atenção.

Há uma cena que mostra o Chapeleiro Maluco quando era uma criança e começava a aprender a arte da chapelaria com o seu pai, que já era o chapeleiro mais famoso do reino.

Ele acabara de fazer o seu primeiro chapeuzinho e foi mostrá-lo todo feliz para o pai, que amarrou a cara, rasgou a ponta do chapéu e jogou-o na lixeira com a justificativa de que era horrível, e que o filho ainda tinha que se dedicar muito para aprender a fazer um chapéu decente.

O garoto ficou magoado, foi para o quarto e levou esse trauma para o resto da vida.

Depois da bronca, e sem o filho ver, o pai demostrando orgulho foi lá pegar o chapeuzinho na lixeira e o guardou para sempre no bolso de sua camisa onde quer que ele fosse, mas nunca comentou com o filho.

Afinal, se o chapéu era horrível, mas ele sentiu orgulho pelo filho ter conseguido fazê-lo, então por que não externou isso para ele ao invés de ter preferido quase humilhá-lo? Será que essa é a melhor forma de motivação?

Isto me acendeu um sinal de alerta, pois muitas vezes temos que ser realmente duros com os nossos filhos, mas até que ponto e em quais circunstâncias esta dureza servirá como uma lição aprendida que de fato irá gerar valor para que eles continuem em frente cada vez mais fortes?

No começo, quando eles são pequenos e começam a fazer as suas primeiras artes, temos a tendência natural de babar tudo e aí qualquer rabisco torto numa folha de papel sempre se transformará numa obra de arte genial.

Assim que eles vão crescendo e, no meio da correria da vida moderna, em algum momento acabaremos “perdendo a mão”, continuando a elogiar os rabiscos tortos (se continuarem ruins) achando que estamos motivando-os, quando na verdade estaremos iludindo-os.

E isto será nocivo, pois quando insistimos em elogiar por elogiar  e dizer que tudo é bonito e perfeito, estaremos ajudando a criar uma casca perigosa de orgulho e vaidade misturada com uma bolha de “eu já sei” que poderá não resistir a uma colisão frontal com o mundo cruel lá fora.

Afinal, se é lindo em casa por que não é lá fora?

Por outro lado, o menosprezo e a desvalorização total como forma de motivação, como fez o pai do Chapeleiro, também parece funcionar ainda pior.

Vez ou outra até conhecemos alguém ou escutamos relatos de pessoas bem sucedidas que venceram na vida para “provar aos pais” que eram capazes de fazer algo, sendo que a grande maioria parece viver frustrada com esse misto de rancor com remorso preso em algum lugar dentro do coração.

Ter regras em casa como não deixar ver televisão durante a semana, por exemplo, não traumatiza e não deixa mágoas em ninguém, mas dizer para a criança que ela nunca conseguirá ser uma atriz como a que interpretou Alice ou que não conseguirá escrever coisas tão boas como o Lewis Carroll, sim.

Criar uma rixa dessas dentro de casa não parece ser a melhor alternativa para potencializar as incríveis facilidades de aprendizado que as crianças possuem, uma vez que desta forma estaremos destruindo as primeiras pontes que poderão levá-las a algum lugar ao invés de criarmos desafios para que elas consigam as suas primeiras vitórias.

Afinal, quando vamos conversar com o chefe sobre a rotina no trabalho ou quando mudamos de trabalho não é justamente por causa dos tais “novos desafios”?

E, então, quais desafios (factíveis) estamos dando para os nossos filhos?

Como a minha filha já tem quase 5 anos, já passei há algum tempo dessa fase de achar tudo lindo e maravilhoso (porque é mesmo! :-D) e, mais do que ficar elogiando a sua inteligência (você é o máximo!) e os resultados (que ainda são precoces), tenho me preocupado muito mais em valorizar o esforço feito para realizar as coisas – seja para construir uma casinha de boneca, desenhar um cachorro ou fazer bolos de massinha.

Desta forma, sempre que ela me mostra alguma coisa – tipo um desenho de uma boneca com um vestido rosa que ficou mais ou menos, parabenizo-a tanto pela ideia como pela feitura do desenho e pergunto se no próximo desenho a boneca não poderia estar vestida de casaco, gorro, luva e calça porque está frio.

Às vezes ela topa o desafio e em outras não, até porque quer brincar de outra coisa, mas pelo menos quando ela topa eu fico feliz em ver que ela aceitou sair da zona de conforto e que está “trabalhando” para melhorar uma habilidade (o desenho, por exemplo).

Pode ser que lá na frente não só ela, como também outras crianças, nunca mais vão querer desenhar na vida, mas desde já elas podem ter a certeza de que os pais estão ao seu lado para ajudá-las a fazer desenhos (e outras coisas) melhores e não para dizer apenas que elas não sabem desenhar e que nunca serão como o Walt Disney.

Afinal, as crianças também têm sonhos e irão realizá-los com ou apesar dos pais – e, se podemos ajudá-los a crescer através do amor, por que não fazê-lo?

Em tempo: Para saber mais sobre como os elogios afetam as crianças, separei estes 3 artigos aqui (basta clicar neles):

1- A influência dos elogios no desempenho das crianças

2- 5 tipos de elogios que contribuem para o desenvolvimento da criança

3- Como o elogio afeta as crianças

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2 Comentários


  1. Esse tema é fundamental.Adorei o tema e o texto! Como em todos os dilemas sobre educação,acho que um dos principais é a manutenção da auto estima.Tentar incentivar e motivar o filho sem fazê-lo se sentir “ the best”.

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    1. Oi, Carla, fico feliz que tenha gostado!

      Realmente esse ponto é muito importante, mas se continuarmos priorizando os elogios para as atitudes ao invés da inteligência estaremos ajudando a construir um ser humano com uma melhor auto-estima e mais apto a encarar o “não sei, mas vou tentar fazer” com mais naturalidade.

      Um grande abraço para toda a família!

      Responder

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